Talagarça

Para M. de S.

 

 

 

I

O brilho vinha de dentro,
não de fora como todo mundo imaginava.
Ou brilhava dos dois lados:
o que fingia, e o que era.

II

Fingia porque era necessário:
diplomático, se acostumou.
Não que fosse cínico
mas compreensivo.

III

Tinha alguma coisa de diferente, não era como os outros
garotos de quase trinta anos.
Sempre foi maturado, mesmo aos quinze.
Sempre justo, mesmo imparcial.

IV

Quando se deu conta já não era mais ele, sendo.
Era outro, o que sempre quis ser.
Articulado, despretensioso e rei.
Sem ostentações, escondia a coroa.

V

Às vezes na multidão sentia-se só.
Então contava piadas, ria, gargalhava.
Não perdoava lamentações
as ignorava para liberta-se delas.

VI

Dos medos que tinha: só desamor.
Começou a amar tudo pra não amar sozinho.
E amava, amava, amava, até doer.
Quando doía, dissimulava.

VII

O outro que era ele, não sendo
pedia atenção
Ele que era o outro, sendo
pedia colo

VIII

Não fazia planos, mas sonhava.
Em solilóquio se dava ao luxo da utopia.
Honesto, vivia de possibilidades
que diziam muitas coisas, ou nada.

IX

Deixava os braços à mostra
para ocultar um peito que sente
chora clama
pede.

X

E quem ousava chegar dentro de um
ganhava a coroa do outro
e um palácio
dos dois.

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(Para C.L.)

 

 

Eu te peço perdão
pelos erros que não cometi
e pelos erros que cometi parcialmente

Eu te peço perdão
por ter sido outro
quando era necessário ser tão eu

[Qual é a palavra que separa o adeus
do até breve?]

Eu te peço perdão
pela rudeza nas palavras
e a fragilidade nas ações

Eu te peço perdão
pelo silêncio quando precisava falar
e pelos gritos quando precisava silenciar

[Quantos braços cabem dentro de um
abraço que não abraça o sol?]

Eu te peço perdão
pelas tentativas fracassadas
e pelas vezes que nem tentei

Eu te peço perdão
por ter sido sincero na hora de mentir
e por ter mentido quando precisava ser honesto

[Qual é a palavra que separa a contenda do sexo
da conclusão dos corpos?]

Eu te peço perdão
pelas coisas que deixei de fazer
e por todas as coisas que fiz

Eu te peço perdão
por ter desistido enquanto era tempo
e ter insistido tarde demais

[Quantos corações batendo são necessários
pra fazer do mundo uma escola de samba?]

Eu te peço perdão
por cantar as minhas músicas
e por nunca ouvir as suas

Eu te peço perdão
pelas frases bonitas
e pelas feias também

[Qual é a palavra que separa o felizes
do pra sempre?]

Eu te peço perdão
por ser conservador em alguns assuntos
e tão inovador em outros

Eu te peço perdão
pelos beijos não dados
e pelo compromisso não cumprido

[Quantas mãos são necessárias para tocar
o que não tem tato?]

Eu te peço perdão
pelo meu medo de ir em frente
e por ter avançado

Eu te peço perdão
pelas discussões infundadas
 e pela preguiça de discutir necessidades

[Qual a palavra que separa a fé
das promessas?]

Eu te peço perdão
pelo feliz destino
e pelo triste acaso

Eu te peço perdão
por ter tentado ser mais do que podia
enquanto ser eu era mais que o suficiente

 [Quantas desculpas cabem num céu cinco
minutos antes do sol nascer?]

Uma pequena, quase, história de amor

 Para (aqui deveriam constar duas iniciais).

          Era quase imperceptível a freqüência que vibrava entre os dois. Eles não estavam preocupados em impressionar, e talvez isso os tivesse feito tão impressionantes. Cercados por uma multidão de rostos que precisavam de holofotes, eles riam contidos, quase tímidos, esperando que em meio a tanto excesso alguém notasse particularidades.

          Na mesa, às vezes, um ousava uma piada e o outro um riso frouxo, mas nada que chamasse tanta atenção quanto as histórias fascinantes que contavam na roda tão familiar e tão distante. Os dois se divertiam, estavam confortáveis naquele lugar onde tudo parecia possível e sem recriminações. Ainda não era o bastante. Precisavam de mais. De muito além para que se reconhecessem completamente. Então, despejariam todas as coisas que apetecem, e salvam.

          Os ponteiros já se casavam no sentido norte e os olhares tímidos entre eles começavam a ficarem freqüentes, olhares que não pediam nada além de cumplicidade, no máximo o conforto de quem fala e de quem entende. E se olharam. Fundo. Lá dentro. A cada olhar a sobra de um preenchia a falta do outro, e estarem se permitindo era o bálsamo de não estarem sós, estando.

          Quando se deram conta da sintonia estabelecida entre eles, o torpor à todas as pessoas em volta era inevitável. Era como se todos eles tivessem se reduzido a pó embaixo desses pés que pareciam flutuar num mundo onde tudo é livre, bom, doce, e puro. Flutuaram para esferas de sentimentos ainda sem nome, porque ninguém até então, os tinha sentido para defini-los. Só os dois. E mais ninguém.

          Foi então que um se levantou, tomou o cigarro e o isqueiro em cima da mesa e se dirigiu para fora do estabelecimento para saciar o vício e pensar na estranha sensação que ia muito além de um flerte num sábado a noite, podendo ser ricamente definida como: encontro.

          Respirou fundo, acendeu o cigarro, tragou, e sorrateiro olhou para mesa buscando o objeto de tamanha identidade. Não havia ninguém na cadeira. Os pés adormeceram enquanto uma energia desesperadora tomava conta do peito, do estômago, das vísceras. Entregue ao desespero olhou novamente para cadeira, ainda vazia, e acabou por ser interrompido por um oi ingênuo e sedutor.

          Envergonhado da indiscrição de ter olhos tão afoitos na mesa, sentiu a boca secar e as palavras sumirem – ele, que é sempre tão bem articulado, soltou constrangido:

– Você fuma?

– Não, mas eu gosto cheiro.

          Riram. Prematuros, souberam ali, que um era a extensão do outro. Sentados no meio fio discutiram assuntos que só eles entendiam, só eles tinham propriedade para falar, e sentir. E com o sol já rompendo o céu partiram cada qual para o seu lado, ambos com a consciência de que amor não precisa de toque, nem de beijo. Só de consentimento.

Brigadeiro de Café

 

Para S.T.

     A primeira vez que a gente se viu eu cheguei atrasado de propósito. Na segunda também. Idem na terceira. Eu sei que parece bobagem, mas chega um momento que você começa ser controlado, viver pensado, agir forçadamente despretensioso, bobagem eu já tinha falado, mas é isso que acontece. Era preciso mostrar desinteresse, não que eu não me interessasse Gosto desse bar  e muito pelo contrário, eu me interessava demasiado e justamente por isso precisava fingir que era um bocado indiferente. Infantil alguns me acusariam e mais uma vez muito pelo contrário, essa coisa de pensar demais é negócio pra gente grande. Pra gente que já viveu muitas histórias como essa que começaria (talvez!). Os infantis não têm cautela, eles se metem mesmo, vão até o fundo, mergulham sem se preocupar com o depois. É sublime.

     A grande verdade é que eu pensei em você como “Redenção”, cruel, eu sei. Eu quis você, eu quis te querer e não houve a menor dificuldade Antártica, por favor porque você era exatamente o que eu precisava, exatamente o que eu procurava. Eu via uma possibilidade de experimentar de novo algo que eu já tinha vivido e era lindo. Houve sim um milhão de outras tentativas, mas não acreditei em nenhuma delas. E nesse equívoco todas as tentativas já fadavam ao fracasso. Besteira. Então, quando você apareceu eu te chamei de rolha. Era uma rolha. De cachaça. Ou de vinho. Não importa. Era uma rolha prestes a se encaixar no buraco que tinham deixado no meu peito. O engraçado é que a rolha tinha o tamanho ideal É eu sei que eu prefiro Brahma, mas hoje eu posso tomar Antártica e parecia disposta a se encaixar no meu vazio.

     O problema é que no nosso primeiro encontro o meu plano tinha dado certo. Quando a gente se apaixona por alguém acontece em instantâneo, no primeiro olho-no-olho, pele-na-pele, oi-tímido-no-oitímido. E assim foi. Você não tinha ares de preocupação, nem de vergonha. Eu tinha. Mas fingi. Suponho que você também tenha fingido e acabamos um acreditando no fingimento do outro. Articulado tentei desenvolver assuntos e como! eles fluíram. 10 20 30 40 50 60 120 240 minutos que pareciam 2 segundos. Percebe porque eu te chamei de rolha? Bastava a companhia. A conversa. O beijo, o sexo eram Você não vai beber?  os menos importantes. Suficiente era estar sentado com você numa mesa de bar falando de cinema ou música ou literatura ou mídia ou amores ou qualquer coisa, suficiente mesmo era estar com você.

     Você viajou. Eu senti saudades. Sempre. Todos os dias. Todas as horas de todos os dias eu pensava em te ligar, quem sabe mandar um recado, até mesmo um email. Mas não, me parecia muito invasivo e eu ainda precisava parecer furtivo e assim foi. Essa é a desculpa que estou me dando e tentando acreditar, mas era medo. Isso. Medo. Mais uma vez o cara que precisava parecer desinteressado estava extremamente interessado – e isso acontece. Irônico, no mínimo. Você também não procurou o cara. Foram longos dias. O cara achava que o que ele estava sentindo era muito visível muito claro enquanto você Como assim? Não pode mais fumar aqui? era uma incógnita de tal modo que você devia ter procurado. E não procurou.

     Você voltou. E não buscou o cara, tampouco ele, no primeiro dia. nem no segundo. nem no terceiro. Talvez no quarto tivesse rolado comunicação, rápida, mas comunicação, que de leve apaziguou o que podemos chamar de saudade. Os dias foram passando e o cara te queria cada hora mais. Acreditava que você não estava muito afim de papo ou envolvimento e eu fui morrendo secando murchando e tudo bem! paixão tem que acontecer nos dois, ambos precisam se apaixonar com a mesma força e na mesma intensidade, porque quando A gente pode sentar lá fora que pode fumar uma pessoa se apaixona mais, sente mais, preza mais, a coisa toda desanda. É como fazer brigadeiro de café. É. Se você colocar mais margarina do que deveria não é mais brigadeiro, vira bala. Percebe? Os dois precisam querer juntos na mesma quantidade. E o cara achava que ele era o mais da história. Não se sabe. O cara é um idiota.

     Fiquei sabendo que você se apaixonou por outra pessoa. Mas é isso aí, um eterno encontrar e se perder; tudo certo. Ok. Desesperador e aliviador saber da sua paixão, porque de algum jeito de algum Essa lei anti-fumo me irrita, mas tudo bem se aqui pro lado de fora o cigarro é liberado. Cervejas, cigarros, agora a gente pode conversar. Cinema? jeito você entende muito bem esse negócio que eu sinto preso na garganta prestes a cuspir pra fora antes que exploda.