Movimento W

B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 1
C: No topo do farol existia uma gaivota tentando pousar e
B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 2
D: alguma coisa a impedia, persistia
B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 3
A: persistia persistia persistia
B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 4
TODOS: 4
D: 5
TODOS: 4
D: 5 5 5 5 5 5 5
TODOS: 4

(B late euforicamente)

C: O marido da gaivota, o gaivoto, compra um maço de cigarros pra ela e a convida para o cinema. A gaivota traga e tosse um pouco. Lá em cima do farol. O gaivoto toma um copo de uísque e entrega um embrulho para
D: a gaivota, ela para e pensa, depois abre o embrulho que contém uma pequena boneca cor de chumbo que sorri e diz bom dia mamãe eu sou uma gaivota. Ou um pica-pau, depende da sua imaginação
A: Boneca desgraçada fez parte com o diabo? Agora deu pra falar? Bonecas não falam. Dizia a gaivota abismada e o
C: gaivoto gargalhava

(B morde a perna de C e arranca um pedaço. Sangra muito.)

C: CARALHO!
D: a gaivota arrancou um pedaço da perna do gaivoto. fim!
B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 5555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555 Lembro que acordei enaltecido pelo cheiro de enxofre misturado a run que invadia o quarto pelas frestas da madeira má pregada das paredes. Sufocante e redentor odor que já se espalhava por aquele lugar que eu jamais ousei pensar – nem em meus piores pesadelos. Era um quarto velho, com ácaros quase visíveis nas cortinas que camuflavam a luz que eu supunha ter lá fora. No canto esquerdo havia uma espécie de pia roxa com uma torneira enferrujada cor lilás e que de tempos em tempos se abria automaticamente e escoava um líquido viscoso que enchia a pia e logo transbordava por todo o chão; as náuseas eram inevitáveis e a aflição também. Um enorme pulsar foi tomando conta de mim, não sabia onde estava e nem o porquê. Uma choupana no meio do nada. A escuridão do quarto era semelhante ao breu que se encontrava em mim, sozinho banhado de solidão. A torneira voltou a pingar. Na lateral direita, um baú rústico me sorria macabramente insinuando que sabia o que se passava ali. Não levantei da cama, fechei os olhos e me pus a rezar, ateu que sempre fora me pus a pedir proteção; de mãos unidas fiz um solilóquio celestial de preces. Passos. Começaram devagar e logo se intensificou numa melodia desconcertante e abusiva de Harry Partch, num crescente ia invadindo todo quarto enquanto cobria minha cabeça com o travesseiro vomitado. Junto com o alarme dos passos era possível ouvir também um assobio irônico entre batidas de metais. Crescendo. Crescendo. Crescendo. Pude ouvir que forçaram a porta com rigidez tateando um molho de chaves em busca da ideal, a chave que traria a liberdade. Uma luz cegante invadiu o quarto sombrio, afoito tentei pegá-la num pulo, e súbita desapareceu. A porta havia sido fechada. Na porta, um homem vestido de branco, bonito, meio calvo e com dentes de ouro me encarava. Meio furtivo com ares de psicopata me flertava, ausente, displicente, mas profundo. O olhar radical adentrava dentro de mim e me lia indiferente as dúvidas, continuou me observando em silêncio parecendo acostumado com a minha reação. O bombardeei de perguntas Quem é você? O que estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Onde está todo mundo? Me diga alguma coisa. Me tira daqui. Me deixa ir embora. Saltei da cama e o avancei com a fúria de um lobo faminto, esbofeteava-o e implorava explicações. Ele, com a expressão de nada me socou a cara com hostilidade. Caído com a boca na água que jorrava da torneira, fiquei imóvel por um tempo que eu não conseguiria precisar, mas sentia dentro de mim uma eternidade que se arrastava para o infinito, até que ele me pescou pelo braço e me jogou na cama pensando em morte. Bruce, a caixa. A caixa, Bruce. Bruce. Bruce.
A: Bruce.
C: Bruce.
D: Bruce.
A, C e D: Fizemos
D: Eu não nasci pro amor
C: O amor não nasceu pra mim
A: Eu não nasci pro amor. O amor não nasceu pra mim
D: Eu nasci pro amor quando ele nasceu pra mim
A: Ele quem?
C: A caixa.
D: O amor
A: Fazia tanto frio naqueles dias. As manhãs chegavam cobertas de flocos de gelo em cima dos gramados, dos carros, das calçadas úmidas. As pessoas pareciam despertar mais tarde, ou elas talvez só andassem mais tímidas pelas ruas, com as cabeças baixas, as mãos nos bolsos, e a cabeça enfiada dentro de tocas. O frio que elas sentiam não geava mais que a indiferença que vinha de dentro. Parecia que o frio gritante dos termômetros havia congelado o que ainda restava de quente, de humano, do interior delas. Defendiam-se com o argumento da Depressão Sazonal, que nada (bom, também poderia ser). As avenidas tinham uma coisa de Europa, e as pessoas uma coisa de Europeus, exceto a cultura, a beleza, o charme, o ar blasé natural. Mas elas tentavam, e definitivamente estavam empenhadas nisso. Não chovia, havia chovido há uns dias atrás, mas não nesse dia, uma pena. Quando chove, apesar da indiferença, as pessoas se olham nos olhos, lá dentro, pupila na pupila, não por reconhecer no olho do outro a si mesmo e vice-versa; e sim, para evitarem a colisão de guarda-chuvas. É preciso olhar bem no olho do outro para saber se é direita ou esquerda. (LONGA PAUSA) Logo ela vai ser aberta e tudo vai ser diferente.

(B e D se beijam intensos. Tocam genitálias. D morde ombro de C. Sangra muito.)

B: Isso dói, Bruce.
D: Não me chamo, Bruce.
A: Não se chama Bruce
D: Desculpe
B: Tudo bem.
D: Me chamo Bruce
B: Não minta
D: Bruce
B: Eu vou furar seus olhos se repetir isso de novo. Você não se chama Bruce, você não é o Bruce. O verdadeiro Bruce a gente
A: Psiu. É Bruce sim
B: E o outro Bruce?
C: Não existe outro Bruce, este é o Bruce.
B: Vocês querem me enlouquecer
A e C: Bruce está aqui
D: Eu sou Bruce
B: Mentira. Mentira. Mentira. Tudo mentira. Não, não, o Bruce… o Bruce… o Bruce… Não. Não.
C: É cada uma. Não fosse a caixa…
A: Não fosse a caixa… o que?
D: O que?
C: Eu teria ido embora há muito tempo.
A: Me contento em saber disso
C: E por você.
B: Blefe
A: E então
C: Cala a boca
B: Blefe
A: Eu te amo
C: Ok
A: Eu estou dizendo que eu te amo
C: Eu estou dizendo que ok
D: Eu estou dizendo não me interessa
B: Eu estou dizendo vão pra casa do caralho
C: Eu estou dizendo vem comigo
A: Eu estou dizendo que eu não quero que vocês transem
B: Eu estou dizendo que a gente só quer a caixa. Não tem espaço para outras coisas. Conforme-se.
C: Conforme-se.
B: Conforme-se.
A: Só quero a caixa.
B: Silêncio. Há 23 anos, 11 meses, 7 dias, 2 horas, 23 minutos, 54 segundos esperando a abertura da caixa. Falta 1 dia, 3 minutos, e 17 segundos para a abertura.
A: Era verão. Eu não devia, não podia. Mas fui. Li, ouvi e senti ciúmes. Era cruel imaginar que aquela música estava ligada àquelas palavras. Era o meu affair preferido, a minha canção favorita, e as palavras que eu queria ouvir. Cruel era você saber. E me sorrir. E insinuar que tudo era meu, não sendo. E sendo não devesse. Era verão. Eu não devia, não podia. Ah! mas tudo bem, não há verão que não acabe, nem paixão.
C: É que você ama isso, e talvez eu só ame te ver amar
D: A juventude é estúpida
B: O dia em que…
A: Eles não sabem que o dia é hoje
C: Hoje?
D: Amanhã.
B: E nós sabemos?
A, C e D: Sabemos
B: Sabemos
A: Ele não sabia
C: Quem?
D: Bruce
B: Sabia e escolheu. Foi feito o necessário
A: São as regras do jogo
D: Não existem regras
C: Está pensando em quebrá-las?
B: Está?
A: Está?
D: (Silêncio)
A: A corrente
D: Não, não estou pensando em quebrá-las
A: A corrente
D: As regras existem, mas não vou quebrá-las
C: A corrente
B: E a coleira
D: Não quebrarei as regras
C: Corrente e coleira
D: Não sou o Bruce, não.
A: Nós, todos que estamos aqui – que chegamos até aqui. Fizemos o que era necessário ser feito. Falta um dia pra caixa ser aberta e não podemos deixar que nada saia errado.
B: Mas e Bruce?
C: Foi necessário porque
A: Não reclame as regras que você propôs
D: Não propus regras
B: Ainda afirma que elas não existem
C: Afirma?
D: Não, elas existem.
B: Você vai nos agradecer quando a caixa for aberta
D: Eu sei
A: Nos agradecer muito
B: Muito
D: ele quebrou a maior regra
C: Sim
A: Sim
B: Sim
D: e só por isso aconteceu
A: Só por isso
B: Só por isso
C: Só por isso
D: E não vai acontecer o mesmo comigo porque eu não vou quebrar a maior regra
C: É, não vai quebrar
D: Prometo
A: Promete?
D: Prometo!
A: Falta pouco pra abertura da caixa, não podemos cometer erros. Os mesmo erros
B: novamente
C: Você vai caminhar pelas calçadas e tropeçar nos buracos, vou te oferecer meu braço porque é pra você
D: Diabético
B: Depressivo
D: Mão fodida
A: Vai ter almoço no horário e moto em alta velocidade
C: Muita velocidade
B: Morte
C: Cruzes
A: Velas
C: Cruzes
D: Terços
C: Livrai
A: Sim
B: Livrai

Anúncios

Um comentário em “Movimento W

  1. Caio disse:

    quero ver isso pronto. pra já. anda logo.

    ps: eh maravilhoso!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s