Uma pequena, quase, história de amor

 Para (aqui deveriam constar duas iniciais).

          Era quase imperceptível a freqüência que vibrava entre os dois. Eles não estavam preocupados em impressionar, e talvez isso os tivesse feito tão impressionantes. Cercados por uma multidão de rostos que precisavam de holofotes, eles riam contidos, quase tímidos, esperando que em meio a tanto excesso alguém notasse particularidades.

          Na mesa, às vezes, um ousava uma piada e o outro um riso frouxo, mas nada que chamasse tanta atenção quanto as histórias fascinantes que contavam na roda tão familiar e tão distante. Os dois se divertiam, estavam confortáveis naquele lugar onde tudo parecia possível e sem recriminações. Ainda não era o bastante. Precisavam de mais. De muito além para que se reconhecessem completamente. Então, despejariam todas as coisas que apetecem, e salvam.

          Os ponteiros já se casavam no sentido norte e os olhares tímidos entre eles começavam a ficarem freqüentes, olhares que não pediam nada além de cumplicidade, no máximo o conforto de quem fala e de quem entende. E se olharam. Fundo. Lá dentro. A cada olhar a sobra de um preenchia a falta do outro, e estarem se permitindo era o bálsamo de não estarem sós, estando.

          Quando se deram conta da sintonia estabelecida entre eles, o torpor à todas as pessoas em volta era inevitável. Era como se todos eles tivessem se reduzido a pó embaixo desses pés que pareciam flutuar num mundo onde tudo é livre, bom, doce, e puro. Flutuaram para esferas de sentimentos ainda sem nome, porque ninguém até então, os tinha sentido para defini-los. Só os dois. E mais ninguém.

          Foi então que um se levantou, tomou o cigarro e o isqueiro em cima da mesa e se dirigiu para fora do estabelecimento para saciar o vício e pensar na estranha sensação que ia muito além de um flerte num sábado a noite, podendo ser ricamente definida como: encontro.

          Respirou fundo, acendeu o cigarro, tragou, e sorrateiro olhou para mesa buscando o objeto de tamanha identidade. Não havia ninguém na cadeira. Os pés adormeceram enquanto uma energia desesperadora tomava conta do peito, do estômago, das vísceras. Entregue ao desespero olhou novamente para cadeira, ainda vazia, e acabou por ser interrompido por um oi ingênuo e sedutor.

          Envergonhado da indiscrição de ter olhos tão afoitos na mesa, sentiu a boca secar e as palavras sumirem – ele, que é sempre tão bem articulado, soltou constrangido:

– Você fuma?

– Não, mas eu gosto cheiro.

          Riram. Prematuros, souberam ali, que um era a extensão do outro. Sentados no meio fio discutiram assuntos que só eles entendiam, só eles tinham propriedade para falar, e sentir. E com o sol já rompendo o céu partiram cada qual para o seu lado, ambos com a consciência de que amor não precisa de toque, nem de beijo. Só de consentimento.

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2 comentários em “Uma pequena, quase, história de amor

  1. Descubra a vida, e narre-a a quem não sabe entendê-la. Descubra o amor, e o faça conhecer o mundo.

  2. Larissa Ramos disse:

    oi andré. fiquei sabendo do seu blog por uma amiga… e tô emocionada em saber q tem gente q entende o q eu sinto e sente o mesmo…

    parabens menino.

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