Brigadeiro de Café

 

Para S.T.

     A primeira vez que a gente se viu eu cheguei atrasado de propósito. Na segunda também. Idem na terceira. Eu sei que parece bobagem, mas chega um momento que você começa ser controlado, viver pensado, agir forçadamente despretensioso, bobagem eu já tinha falado, mas é isso que acontece. Era preciso mostrar desinteresse, não que eu não me interessasse Gosto desse bar  e muito pelo contrário, eu me interessava demasiado e justamente por isso precisava fingir que era um bocado indiferente. Infantil alguns me acusariam e mais uma vez muito pelo contrário, essa coisa de pensar demais é negócio pra gente grande. Pra gente que já viveu muitas histórias como essa que começaria (talvez!). Os infantis não têm cautela, eles se metem mesmo, vão até o fundo, mergulham sem se preocupar com o depois. É sublime.

     A grande verdade é que eu pensei em você como “Redenção”, cruel, eu sei. Eu quis você, eu quis te querer e não houve a menor dificuldade Antártica, por favor porque você era exatamente o que eu precisava, exatamente o que eu procurava. Eu via uma possibilidade de experimentar de novo algo que eu já tinha vivido e era lindo. Houve sim um milhão de outras tentativas, mas não acreditei em nenhuma delas. E nesse equívoco todas as tentativas já fadavam ao fracasso. Besteira. Então, quando você apareceu eu te chamei de rolha. Era uma rolha. De cachaça. Ou de vinho. Não importa. Era uma rolha prestes a se encaixar no buraco que tinham deixado no meu peito. O engraçado é que a rolha tinha o tamanho ideal É eu sei que eu prefiro Brahma, mas hoje eu posso tomar Antártica e parecia disposta a se encaixar no meu vazio.

     O problema é que no nosso primeiro encontro o meu plano tinha dado certo. Quando a gente se apaixona por alguém acontece em instantâneo, no primeiro olho-no-olho, pele-na-pele, oi-tímido-no-oitímido. E assim foi. Você não tinha ares de preocupação, nem de vergonha. Eu tinha. Mas fingi. Suponho que você também tenha fingido e acabamos um acreditando no fingimento do outro. Articulado tentei desenvolver assuntos e como! eles fluíram. 10 20 30 40 50 60 120 240 minutos que pareciam 2 segundos. Percebe porque eu te chamei de rolha? Bastava a companhia. A conversa. O beijo, o sexo eram Você não vai beber?  os menos importantes. Suficiente era estar sentado com você numa mesa de bar falando de cinema ou música ou literatura ou mídia ou amores ou qualquer coisa, suficiente mesmo era estar com você.

     Você viajou. Eu senti saudades. Sempre. Todos os dias. Todas as horas de todos os dias eu pensava em te ligar, quem sabe mandar um recado, até mesmo um email. Mas não, me parecia muito invasivo e eu ainda precisava parecer furtivo e assim foi. Essa é a desculpa que estou me dando e tentando acreditar, mas era medo. Isso. Medo. Mais uma vez o cara que precisava parecer desinteressado estava extremamente interessado – e isso acontece. Irônico, no mínimo. Você também não procurou o cara. Foram longos dias. O cara achava que o que ele estava sentindo era muito visível muito claro enquanto você Como assim? Não pode mais fumar aqui? era uma incógnita de tal modo que você devia ter procurado. E não procurou.

     Você voltou. E não buscou o cara, tampouco ele, no primeiro dia. nem no segundo. nem no terceiro. Talvez no quarto tivesse rolado comunicação, rápida, mas comunicação, que de leve apaziguou o que podemos chamar de saudade. Os dias foram passando e o cara te queria cada hora mais. Acreditava que você não estava muito afim de papo ou envolvimento e eu fui morrendo secando murchando e tudo bem! paixão tem que acontecer nos dois, ambos precisam se apaixonar com a mesma força e na mesma intensidade, porque quando A gente pode sentar lá fora que pode fumar uma pessoa se apaixona mais, sente mais, preza mais, a coisa toda desanda. É como fazer brigadeiro de café. É. Se você colocar mais margarina do que deveria não é mais brigadeiro, vira bala. Percebe? Os dois precisam querer juntos na mesma quantidade. E o cara achava que ele era o mais da história. Não se sabe. O cara é um idiota.

     Fiquei sabendo que você se apaixonou por outra pessoa. Mas é isso aí, um eterno encontrar e se perder; tudo certo. Ok. Desesperador e aliviador saber da sua paixão, porque de algum jeito de algum Essa lei anti-fumo me irrita, mas tudo bem se aqui pro lado de fora o cigarro é liberado. Cervejas, cigarros, agora a gente pode conversar. Cinema? jeito você entende muito bem esse negócio que eu sinto preso na garganta prestes a cuspir pra fora antes que exploda.

 

 

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7 comentários em “Brigadeiro de Café

  1. Caio disse:

    Voltou com tudo ne bonitinho? Que saudade imeeeeensa de voce. Estava pensando que a nossa vida nao cabe mesmo num opala.

    • Meu amigo. Que saudade imensa digo eu. Desde que você partiu ficou um vazio tão grande aqui. Sei lá, são tantas coisas pra contar, inobstantes as que já foram contadas. Vou pra Porto Alegre te ver e tirar uma foto, antes que você vire um cineasta famoso e me esqueça.

      Amo você. E não, a nossa vida não cabe mesmo num opala.

  2. Ananda Andrade disse:

    Tão bom te ler e conseguir te sentir, Déco!

  3. Luísa Barbieri disse:

    Bonitinho bonitinho. Você parece mais velho e mais maduro mas acho inenarrável como você continua com a mesma essência. Louvável. Louvável porque em épocas que é gritante que muitos dos nossos amigos perderam esta, você continua lutando pelo brega.

    Você está escrevendo cada vez melhor.
    Um beijo do tamanho do que a gente foi um dia.

  4. Anônimo. disse:

    Já é tarde?

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