Talagarça

Para M. de S.

 

 

 

I

O brilho vinha de dentro,
não de fora como todo mundo imaginava.
Ou brilhava dos dois lados:
o que fingia, e o que era.

II

Fingia porque era necessário:
diplomático, se acostumou.
Não que fosse cínico
mas compreensivo.

III

Tinha alguma coisa de diferente, não era como os outros
garotos de quase trinta anos.
Sempre foi maturado, mesmo aos quinze.
Sempre justo, mesmo imparcial.

IV

Quando se deu conta já não era mais ele, sendo.
Era outro, o que sempre quis ser.
Articulado, despretensioso e rei.
Sem ostentações, escondia a coroa.

V

Às vezes na multidão sentia-se só.
Então contava piadas, ria, gargalhava.
Não perdoava lamentações
as ignorava para liberta-se delas.

VI

Dos medos que tinha: só desamor.
Começou a amar tudo pra não amar sozinho.
E amava, amava, amava, até doer.
Quando doía, dissimulava.

VII

O outro que era ele, não sendo
pedia atenção
Ele que era o outro, sendo
pedia colo

VIII

Não fazia planos, mas sonhava.
Em solilóquio se dava ao luxo da utopia.
Honesto, vivia de possibilidades
que diziam muitas coisas, ou nada.

IX

Deixava os braços à mostra
para ocultar um peito que sente
chora clama
pede.

X

E quem ousava chegar dentro de um
ganhava a coroa do outro
e um palácio
dos dois.

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(Para C.L.)

 

 

Eu te peço perdão
pelos erros que não cometi
e pelos erros que cometi parcialmente

Eu te peço perdão
por ter sido outro
quando era necessário ser tão eu

[Qual é a palavra que separa o adeus
do até breve?]

Eu te peço perdão
pela rudeza nas palavras
e a fragilidade nas ações

Eu te peço perdão
pelo silêncio quando precisava falar
e pelos gritos quando precisava silenciar

[Quantos braços cabem dentro de um
abraço que não abraça o sol?]

Eu te peço perdão
pelas tentativas fracassadas
e pelas vezes que nem tentei

Eu te peço perdão
por ter sido sincero na hora de mentir
e por ter mentido quando precisava ser honesto

[Qual é a palavra que separa a contenda do sexo
da conclusão dos corpos?]

Eu te peço perdão
pelas coisas que deixei de fazer
e por todas as coisas que fiz

Eu te peço perdão
por ter desistido enquanto era tempo
e ter insistido tarde demais

[Quantos corações batendo são necessários
pra fazer do mundo uma escola de samba?]

Eu te peço perdão
por cantar as minhas músicas
e por nunca ouvir as suas

Eu te peço perdão
pelas frases bonitas
e pelas feias também

[Qual é a palavra que separa o felizes
do pra sempre?]

Eu te peço perdão
por ser conservador em alguns assuntos
e tão inovador em outros

Eu te peço perdão
pelos beijos não dados
e pelo compromisso não cumprido

[Quantas mãos são necessárias para tocar
o que não tem tato?]

Eu te peço perdão
pelo meu medo de ir em frente
e por ter avançado

Eu te peço perdão
pelas discussões infundadas
 e pela preguiça de discutir necessidades

[Qual a palavra que separa a fé
das promessas?]

Eu te peço perdão
pelo feliz destino
e pelo triste acaso

Eu te peço perdão
por ter tentado ser mais do que podia
enquanto ser eu era mais que o suficiente

 [Quantas desculpas cabem num céu cinco
minutos antes do sol nascer?]

Movimento W

B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 1
C: No topo do farol existia uma gaivota tentando pousar e
B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 2
D: alguma coisa a impedia, persistia
B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 3
A: persistia persistia persistia
B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 4
TODOS: 4
D: 5
TODOS: 4
D: 5 5 5 5 5 5 5
TODOS: 4

(B late euforicamente)

C: O marido da gaivota, o gaivoto, compra um maço de cigarros pra ela e a convida para o cinema. A gaivota traga e tosse um pouco. Lá em cima do farol. O gaivoto toma um copo de uísque e entrega um embrulho para
D: a gaivota, ela para e pensa, depois abre o embrulho que contém uma pequena boneca cor de chumbo que sorri e diz bom dia mamãe eu sou uma gaivota. Ou um pica-pau, depende da sua imaginação
A: Boneca desgraçada fez parte com o diabo? Agora deu pra falar? Bonecas não falam. Dizia a gaivota abismada e o
C: gaivoto gargalhava

(B morde a perna de C e arranca um pedaço. Sangra muito.)

C: CARALHO!
D: a gaivota arrancou um pedaço da perna do gaivoto. fim!
B: janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro dezembro 5555555555555555555555555555555555555555555555555555555555555 Lembro que acordei enaltecido pelo cheiro de enxofre misturado a run que invadia o quarto pelas frestas da madeira má pregada das paredes. Sufocante e redentor odor que já se espalhava por aquele lugar que eu jamais ousei pensar – nem em meus piores pesadelos. Era um quarto velho, com ácaros quase visíveis nas cortinas que camuflavam a luz que eu supunha ter lá fora. No canto esquerdo havia uma espécie de pia roxa com uma torneira enferrujada cor lilás e que de tempos em tempos se abria automaticamente e escoava um líquido viscoso que enchia a pia e logo transbordava por todo o chão; as náuseas eram inevitáveis e a aflição também. Um enorme pulsar foi tomando conta de mim, não sabia onde estava e nem o porquê. Uma choupana no meio do nada. A escuridão do quarto era semelhante ao breu que se encontrava em mim, sozinho banhado de solidão. A torneira voltou a pingar. Na lateral direita, um baú rústico me sorria macabramente insinuando que sabia o que se passava ali. Não levantei da cama, fechei os olhos e me pus a rezar, ateu que sempre fora me pus a pedir proteção; de mãos unidas fiz um solilóquio celestial de preces. Passos. Começaram devagar e logo se intensificou numa melodia desconcertante e abusiva de Harry Partch, num crescente ia invadindo todo quarto enquanto cobria minha cabeça com o travesseiro vomitado. Junto com o alarme dos passos era possível ouvir também um assobio irônico entre batidas de metais. Crescendo. Crescendo. Crescendo. Pude ouvir que forçaram a porta com rigidez tateando um molho de chaves em busca da ideal, a chave que traria a liberdade. Uma luz cegante invadiu o quarto sombrio, afoito tentei pegá-la num pulo, e súbita desapareceu. A porta havia sido fechada. Na porta, um homem vestido de branco, bonito, meio calvo e com dentes de ouro me encarava. Meio furtivo com ares de psicopata me flertava, ausente, displicente, mas profundo. O olhar radical adentrava dentro de mim e me lia indiferente as dúvidas, continuou me observando em silêncio parecendo acostumado com a minha reação. O bombardeei de perguntas Quem é você? O que estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Onde está todo mundo? Me diga alguma coisa. Me tira daqui. Me deixa ir embora. Saltei da cama e o avancei com a fúria de um lobo faminto, esbofeteava-o e implorava explicações. Ele, com a expressão de nada me socou a cara com hostilidade. Caído com a boca na água que jorrava da torneira, fiquei imóvel por um tempo que eu não conseguiria precisar, mas sentia dentro de mim uma eternidade que se arrastava para o infinito, até que ele me pescou pelo braço e me jogou na cama pensando em morte. Bruce, a caixa. A caixa, Bruce. Bruce. Bruce.
A: Bruce.
C: Bruce.
D: Bruce.
A, C e D: Fizemos
D: Eu não nasci pro amor
C: O amor não nasceu pra mim
A: Eu não nasci pro amor. O amor não nasceu pra mim
D: Eu nasci pro amor quando ele nasceu pra mim
A: Ele quem?
C: A caixa.
D: O amor
A: Fazia tanto frio naqueles dias. As manhãs chegavam cobertas de flocos de gelo em cima dos gramados, dos carros, das calçadas úmidas. As pessoas pareciam despertar mais tarde, ou elas talvez só andassem mais tímidas pelas ruas, com as cabeças baixas, as mãos nos bolsos, e a cabeça enfiada dentro de tocas. O frio que elas sentiam não geava mais que a indiferença que vinha de dentro. Parecia que o frio gritante dos termômetros havia congelado o que ainda restava de quente, de humano, do interior delas. Defendiam-se com o argumento da Depressão Sazonal, que nada (bom, também poderia ser). As avenidas tinham uma coisa de Europa, e as pessoas uma coisa de Europeus, exceto a cultura, a beleza, o charme, o ar blasé natural. Mas elas tentavam, e definitivamente estavam empenhadas nisso. Não chovia, havia chovido há uns dias atrás, mas não nesse dia, uma pena. Quando chove, apesar da indiferença, as pessoas se olham nos olhos, lá dentro, pupila na pupila, não por reconhecer no olho do outro a si mesmo e vice-versa; e sim, para evitarem a colisão de guarda-chuvas. É preciso olhar bem no olho do outro para saber se é direita ou esquerda. (LONGA PAUSA) Logo ela vai ser aberta e tudo vai ser diferente.

(B e D se beijam intensos. Tocam genitálias. D morde ombro de C. Sangra muito.)

B: Isso dói, Bruce.
D: Não me chamo, Bruce.
A: Não se chama Bruce
D: Desculpe
B: Tudo bem.
D: Me chamo Bruce
B: Não minta
D: Bruce
B: Eu vou furar seus olhos se repetir isso de novo. Você não se chama Bruce, você não é o Bruce. O verdadeiro Bruce a gente
A: Psiu. É Bruce sim
B: E o outro Bruce?
C: Não existe outro Bruce, este é o Bruce.
B: Vocês querem me enlouquecer
A e C: Bruce está aqui
D: Eu sou Bruce
B: Mentira. Mentira. Mentira. Tudo mentira. Não, não, o Bruce… o Bruce… o Bruce… Não. Não.
C: É cada uma. Não fosse a caixa…
A: Não fosse a caixa… o que?
D: O que?
C: Eu teria ido embora há muito tempo.
A: Me contento em saber disso
C: E por você.
B: Blefe
A: E então
C: Cala a boca
B: Blefe
A: Eu te amo
C: Ok
A: Eu estou dizendo que eu te amo
C: Eu estou dizendo que ok
D: Eu estou dizendo não me interessa
B: Eu estou dizendo vão pra casa do caralho
C: Eu estou dizendo vem comigo
A: Eu estou dizendo que eu não quero que vocês transem
B: Eu estou dizendo que a gente só quer a caixa. Não tem espaço para outras coisas. Conforme-se.
C: Conforme-se.
B: Conforme-se.
A: Só quero a caixa.
B: Silêncio. Há 23 anos, 11 meses, 7 dias, 2 horas, 23 minutos, 54 segundos esperando a abertura da caixa. Falta 1 dia, 3 minutos, e 17 segundos para a abertura.
A: Era verão. Eu não devia, não podia. Mas fui. Li, ouvi e senti ciúmes. Era cruel imaginar que aquela música estava ligada àquelas palavras. Era o meu affair preferido, a minha canção favorita, e as palavras que eu queria ouvir. Cruel era você saber. E me sorrir. E insinuar que tudo era meu, não sendo. E sendo não devesse. Era verão. Eu não devia, não podia. Ah! mas tudo bem, não há verão que não acabe, nem paixão.
C: É que você ama isso, e talvez eu só ame te ver amar
D: A juventude é estúpida
B: O dia em que…
A: Eles não sabem que o dia é hoje
C: Hoje?
D: Amanhã.
B: E nós sabemos?
A, C e D: Sabemos
B: Sabemos
A: Ele não sabia
C: Quem?
D: Bruce
B: Sabia e escolheu. Foi feito o necessário
A: São as regras do jogo
D: Não existem regras
C: Está pensando em quebrá-las?
B: Está?
A: Está?
D: (Silêncio)
A: A corrente
D: Não, não estou pensando em quebrá-las
A: A corrente
D: As regras existem, mas não vou quebrá-las
C: A corrente
B: E a coleira
D: Não quebrarei as regras
C: Corrente e coleira
D: Não sou o Bruce, não.
A: Nós, todos que estamos aqui – que chegamos até aqui. Fizemos o que era necessário ser feito. Falta um dia pra caixa ser aberta e não podemos deixar que nada saia errado.
B: Mas e Bruce?
C: Foi necessário porque
A: Não reclame as regras que você propôs
D: Não propus regras
B: Ainda afirma que elas não existem
C: Afirma?
D: Não, elas existem.
B: Você vai nos agradecer quando a caixa for aberta
D: Eu sei
A: Nos agradecer muito
B: Muito
D: ele quebrou a maior regra
C: Sim
A: Sim
B: Sim
D: e só por isso aconteceu
A: Só por isso
B: Só por isso
C: Só por isso
D: E não vai acontecer o mesmo comigo porque eu não vou quebrar a maior regra
C: É, não vai quebrar
D: Prometo
A: Promete?
D: Prometo!
A: Falta pouco pra abertura da caixa, não podemos cometer erros. Os mesmo erros
B: novamente
C: Você vai caminhar pelas calçadas e tropeçar nos buracos, vou te oferecer meu braço porque é pra você
D: Diabético
B: Depressivo
D: Mão fodida
A: Vai ter almoço no horário e moto em alta velocidade
C: Muita velocidade
B: Morte
C: Cruzes
A: Velas
C: Cruzes
D: Terços
C: Livrai
A: Sim
B: Livrai

Movimento Z

A: Pode ser escrito, mas não se pode editar
B: Quando vai acontecer?
C: Não se pode editar
D: Editar
B: Vai ser aberta
A: Já tem data marcada pra abertura, não adianta ficar vigiando a caixa
C: É um jogo?
D: Viver é um jogo e aceitar a partida é indispensável
B: Aceitei, aceitamos
A: Não se pode editar, só escrever
C: Criança ainda ninguém me escolhia para os jogos, eu sempre sobrava. Em todas as partidas de futebol, bola queimada, vôlei, ou qualquer porra dessas, escolhiam-se todos e quando eu era o resto ficava no time que tinha menos jogadores e algumas vezes mesmo com menos jogadores me rejeitavam, preferiam uma partida com um jogador a menos do que eu no time. Não me fazia diferença porque eu detestava todas as partidas e suor também. E também nas.
B: Nos aprisionamos e nem nos demos conta
D: Errado, a porta está aberta e podemos partir a hora que bem entendermos
A: E só por isso somos prisioneiros
B: Ficcional demais, cinematográfico demais. As regras são claras
D: Não existem regras
B: Existem sim
C: Existem sim
A: Sim. Existem.
D: Não existem regras porque não há jogo
C: Aceito o risco
B: No dia em que a caixa for aberta estaremos dando um paço além da metafísica, além dos planos, além das verdades inconvenientes. Vai ser um dia marcado pela evolução que
C: Polir a minha moto se tornou mais necessário que tomar banho
B: indivíduos que aceitaram a caixa maior atingiram o ápice da
C: Não que o banho me seja tão necessário, porém eu me sinto sujo, engraxado com uma lama que fede oriunda de uma índole que eu já não tenho. Me conformei com o óleo que podia facilmente lustrar a
B: vulgaridade de ter o melhor
A: Talvez chova no final do dia e molhe tudo o que ainda nos resta
C: a cara de pau que assumi ao me submeter à caixa
D: Me ajude arrastar essas coisas aqui
C: cheguei num nível em que não se pode aceitar o pequeno, o pouco, o menor. E no momento em que ela for aberta eu vou subir na minha moto e te pedir pra subir na minha garupa, me abraçar forte e correr correr correr correr correr correr correr correr correr até Marrakeche pedir
A: um sanduíche, vodca, outra caixa.
C: Todas as caixas que existirem. Vamos subir na minha moto em busca de uma nova caixa. E outra e mais outra e conseguir sorvetes de patos e gansos e falar pra você que

(A lambe o corpo de C como um animal. A morde fortemente o braço de C. Muito sangue.)

D: Silêncio. Há 27 anos, 4 meses, 8 dias, 13 horas, 21 minutos, 45 segundos esperando a abertura da caixa. Faltam 3 dias, 7 horas, e alguns segundos para a abertura.
A: Vou desistir!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
TODOS: Não.;!?
A: Escolher as pequenas e partir em direção ao novo
TODOS: Sim.;!?
A: Estou obcecado pela saída e não mais por ela
TODOS: Não
B: Você não devia ter feito isso
D: Você conhece as regras
B: Não existem regras
C: Você conhece as regras
D: Não existem regras
A: Existem regras
D: O açoite
B: Você colocou todos nós em risco
C: Traga as correntes
A: Não, as correntes não
B: As correntes
C: AS CORRENTES E A COLEIRA
A: Só as correntes, por favor
B: Favores não pensados a priori, não pensados a posteriori
D: Correntes e coleira
C: Agora

(C faz sexo oral em A)

B: Skinner, irônico ele ter criado logo uma caixa
D: Gestalt
B: Artaud
D: Rimbaud
B: Joplin
D: um dia me vesti, lavei o rosto e saí pra rua. queria alguma bebida, alguns cigarros, sexo se rolasse, e saí. fui caminhando no meio da rua que dormia e encontrei um cão sem a orelha esquerda, começou a latir incontrolavelmente e cada vez mais alto e cada vez mais e feito um coral todos os cachorros presos atrás das grades começaram a latir também, começaram a arrancar as próprias orelhas ferozmente e latiam latiam latiam. Gritei alto por Bruce. BRUUUCEEEEE! VEEENHA BRUUUUCE!. Ele não vinha, os cachorros arrancavam as orelhas e latiam e eu clamava por Bruce que não vinha. BRUUUCEEEEE AU AU AU MIAU AU BRUUUUCE.
B: Era dezembro
D: Não, agosto.
B: Quase no Natal que eu gritei por Bruce. Eu sabia que ele ficaria entre nós. Mas nós o
D: Ele tomou a decisão
C: Fizemos o que era necessário ser feito
A: Pela caixa.
B: Pela caixa.
C: Pela caixa.
D: Pela caixa.
A: Me tirem daqui
C: Ainda não
B: Silêncio. Há 24 anos, 7 meses, 5 dias, 23 horas, 31 segundos esperando a abertura da caixa. Faltam 2 dias, 19 horas, 40 minutos, e 3 segundos para a abertura.
D: Ainda não é hora
C: Você precisa nos prometer que nunca mais vai fazer isso, docinho
A: Prometo
B: É mentira
A: Prometo
D: É truque
A: Prometo
C: Promete?
A: Prometo.
B: A punheta ou a siririca contrariando uma crença relativamente comum entre homens e mulheres, não são uma perturbação ou mesmo perversão sexual. Todos os seres humanos deveriam ter em mente que é um procedimento normal tanto fisiológico como anatômico, que não é só útil, como também de grande capacidade de instrução para a vida.
C: A SIDA contamina menos que as ideologias
A: Mas Her, primogênito de Judá, foi um homem mau na presença do Senhor e o Senhor o fez morrer
D: Deuses
B: Não importa quantas vezes é praticada, é uma saudável expressão da sexualidade, a não ser quando se torna um comportamento compulsivo, mecânico, cuja a intenção deixa de ser gozar a vida, e sim: evitá-la. Também é comum que se masturbem e tenham relações sexuais homossexuais. Estas atividades foram registradas, entre outros animais, para os ratos, chinchilas, coelhos, porcos-espinhos, esquilos, furões, cavalos, gado, elefantes, cachorros, babuínos, macacos, chipanzés. A festa da floresta toda. O oba-oba foi liberado.
D: Bruce.
A: Me tirem daqui
C: Podemos tirar
D: Não devíamos ter feito aquilo à Bruce
A: Necessário.
B: Prazeroso
C: Maravilhoso
D: Você está num caminho azul, em determinado ponto do caminho há uma bifurcação: de um lado o verde, de outro o vermelho. Entre os lados um rio de lodo que fede muito, depósito de todos os restos sórdidos. Então, você escolhe o lado vermelho e segue por ele. Depois se dá conta que preferia o verde, atravessa o rio nojento para chegar ao verde. Os indivíduos do lado vermelho que te acompanhavam não podem te oferecerem a possibilidade que eles não tiveram, e fazem o que é preciso ser feito.
A: No rio
B: Na lama
C: Com fé
D: Vermelho-sangue-teu
TODOS: NOSSO
A: Silêncio. Há 20 anos, 2 meses, 29 dias, 15 horas, 54 segundos esperando a abertura da caixa. Faltam 2 dias, 30 minutos, e 49 segundos para a abertura.

(Começa uma chuva fraca. Depois chuva muito forte. Trovões. Raios.)

Movimento Y

(Uma luz cegante invade o ambiente)

C: vai ser hoje às cinco da tarde quando eu te encontrar e dizer tudo que é preciso ser dito antes que a caixa seja aberta antes que qualquer decisão seja tomada e que nossos destinos sejam determinados antes que seja tarde demais e que os patos e gansos comecem a falar grego ou espanhol ou italiano ou inglês vai ser nesse momento que eu vou te segurar pela mão e te levar pra tomar um sorvete enquanto você caminha indiferente a minha presença só com a ansiedade da caixa que vai ser aberta a qualquer momento e então você tome as providências necessárias para se livrar de quando a caixa for aberta tudo que aconteceu até hoje vai ser o rascunho de um papel não escrito porque você vai estar usando a sua melhor roupa e vai caminhar numa distração que vai te fazer tropeçar num buraco da calçada e eu vou oferecer o meu braço porque é a sua melhor roupa que está em jogo antes que a caixa seja aberta eu vou precisar te dizer tudo que é preciso ser dito e você vai rejeitar tudo que eu falar a sua mente vai estar na caixa porque você só veio aqui às cinco da tarde pela caixa mas eu não me importo porque a sua melhor roupa é o meu melhor desafeto seu apreço por ela é maior do que um dia o seu gostar foi por mim e então tudo vai ser igual ao que nunca foi e não devia ser e eu tentarei explicar tudo que eu tenho vontade antes que a caixa seja aberta quando ela abrir o seu olhar displicente vai se voltar todo para a melhor roupa quando você usava na abertura da caixa e eu vou sofrer tanto porque a sua melhor roupa é tudo que eu preciso dizer

A: eu não vou aparecer às cinco da tarde você merece meus dezessete minutos de atraso não é justo que toda a espera de uma vida seja compensada às cinco da tarde eu vou aparecer às cinco e dezessete da tarde porque dezessete é sonoro e eu gosto desse número e então às seis da tarde quando a caixa for aberta eu vou ficar em silêncio te ignorando te evitando te matando minuto a minuto e a caixa vai ser aberta nada mais vai ser necessário a alforria será dada e pra isso tudo eu até coloquei a minha melhor roupa pois a ocasião exigia e vou desfilar com um nariz mais empinado do que sempre e vou tapar os olhos para tudo que acontece em volta e as pessoas não sabem da caixa e se sabem ignoram não devendo porque quando ela for aberta a nossa vida vai ser completamente diferente tudo não vai passar de uma mentira mal contada e eu te amei tanto enquanto ela esteve fechada que você não soube conviver com isso e não haverá nunca mais um sorvete de patos e gansos porque eu costumo tropeçar nos buracos e você vai tentar falar de mim e da minha melhor roupa só porque a caixa vai ser aberta é tarde tão tarde agora eu já não me importo com o sorvete apenas com a minha melhor roupa e com a caixa uma luz tão forte vai brilhar sobre a caixa que as palavras passado e destino serão riscadas do dicionário a culpa não é da minha melhor roupa porque eu já usei ela pra você e ela não foi notada vou te dar a minha educação por vingança e o meu respeito por ódio quando a caixa for aberta talvez você perceba que

C: entendo agora que a caixa vai ser aberta que você vai repudiar tudo que aconteceu enquanto ela esteve fechada e tudo bem que você não queira tomar o sorvete mas deveria pelo menos topar um suco na verdade eu só quero estar com você antes que a caixa seja aberta olhar no seu olho e dizer que as coisas valeram a pena enquanto ela esteve fechada e que você não precisa ir embora apenas por ela ser aberta agora a caixa escancarada vai esfregar nas nossas caras e eu sei não me interrompa deixa eu falar isso tudo antes que a caixa seja aberta eu estou com medo e só tenho você e você só tem a mim mas o seu desprezo não cabe dentro daquela caixa e por isso só por isso por isso só por isso por isso você está fazendo isso tudo vamos deitar na grama ainda que tem sol largatear e relembrar que eu não prestei atenção na sua melhor roupa mas que sempre soube que ela existia e sempre soube também

A: não estou te evitando porque a caixa vai ser aberta tomei essa decisão muito antes disso e antes daquilo tudo e do discurso das promessas das frases da melhor roupa do sorvete de patos e gansos e tudo isso foi dito um milhão de vezes mais você terá sorvete de patos e gansos melhor roupa um ombro amigo grama em dia de sol braço em calçada esburacadas pés quentes nas manhãs de inverno elefantes no jardim ladrilhos com desenhos em quadrinhos almoço no horário e eu acreditei antes que a caixa fosse aberta porque era necessário mas agora não eu não tenho a menor ingenuidade de acreditar que isso tudo vai acontecer porque hoje antes da caixa ser aberta você me prometeu o sorvete de patos e gansos a caixa vai ser aberta quando o

Uma pequena, quase, história de amor

 Para (aqui deveriam constar duas iniciais).

          Era quase imperceptível a freqüência que vibrava entre os dois. Eles não estavam preocupados em impressionar, e talvez isso os tivesse feito tão impressionantes. Cercados por uma multidão de rostos que precisavam de holofotes, eles riam contidos, quase tímidos, esperando que em meio a tanto excesso alguém notasse particularidades.

          Na mesa, às vezes, um ousava uma piada e o outro um riso frouxo, mas nada que chamasse tanta atenção quanto as histórias fascinantes que contavam na roda tão familiar e tão distante. Os dois se divertiam, estavam confortáveis naquele lugar onde tudo parecia possível e sem recriminações. Ainda não era o bastante. Precisavam de mais. De muito além para que se reconhecessem completamente. Então, despejariam todas as coisas que apetecem, e salvam.

          Os ponteiros já se casavam no sentido norte e os olhares tímidos entre eles começavam a ficarem freqüentes, olhares que não pediam nada além de cumplicidade, no máximo o conforto de quem fala e de quem entende. E se olharam. Fundo. Lá dentro. A cada olhar a sobra de um preenchia a falta do outro, e estarem se permitindo era o bálsamo de não estarem sós, estando.

          Quando se deram conta da sintonia estabelecida entre eles, o torpor à todas as pessoas em volta era inevitável. Era como se todos eles tivessem se reduzido a pó embaixo desses pés que pareciam flutuar num mundo onde tudo é livre, bom, doce, e puro. Flutuaram para esferas de sentimentos ainda sem nome, porque ninguém até então, os tinha sentido para defini-los. Só os dois. E mais ninguém.

          Foi então que um se levantou, tomou o cigarro e o isqueiro em cima da mesa e se dirigiu para fora do estabelecimento para saciar o vício e pensar na estranha sensação que ia muito além de um flerte num sábado a noite, podendo ser ricamente definida como: encontro.

          Respirou fundo, acendeu o cigarro, tragou, e sorrateiro olhou para mesa buscando o objeto de tamanha identidade. Não havia ninguém na cadeira. Os pés adormeceram enquanto uma energia desesperadora tomava conta do peito, do estômago, das vísceras. Entregue ao desespero olhou novamente para cadeira, ainda vazia, e acabou por ser interrompido por um oi ingênuo e sedutor.

          Envergonhado da indiscrição de ter olhos tão afoitos na mesa, sentiu a boca secar e as palavras sumirem – ele, que é sempre tão bem articulado, soltou constrangido:

– Você fuma?

– Não, mas eu gosto cheiro.

          Riram. Prematuros, souberam ali, que um era a extensão do outro. Sentados no meio fio discutiram assuntos que só eles entendiam, só eles tinham propriedade para falar, e sentir. E com o sol já rompendo o céu partiram cada qual para o seu lado, ambos com a consciência de que amor não precisa de toque, nem de beijo. Só de consentimento.

Brigadeiro de Café

 

Para S.T.

     A primeira vez que a gente se viu eu cheguei atrasado de propósito. Na segunda também. Idem na terceira. Eu sei que parece bobagem, mas chega um momento que você começa ser controlado, viver pensado, agir forçadamente despretensioso, bobagem eu já tinha falado, mas é isso que acontece. Era preciso mostrar desinteresse, não que eu não me interessasse Gosto desse bar  e muito pelo contrário, eu me interessava demasiado e justamente por isso precisava fingir que era um bocado indiferente. Infantil alguns me acusariam e mais uma vez muito pelo contrário, essa coisa de pensar demais é negócio pra gente grande. Pra gente que já viveu muitas histórias como essa que começaria (talvez!). Os infantis não têm cautela, eles se metem mesmo, vão até o fundo, mergulham sem se preocupar com o depois. É sublime.

     A grande verdade é que eu pensei em você como “Redenção”, cruel, eu sei. Eu quis você, eu quis te querer e não houve a menor dificuldade Antártica, por favor porque você era exatamente o que eu precisava, exatamente o que eu procurava. Eu via uma possibilidade de experimentar de novo algo que eu já tinha vivido e era lindo. Houve sim um milhão de outras tentativas, mas não acreditei em nenhuma delas. E nesse equívoco todas as tentativas já fadavam ao fracasso. Besteira. Então, quando você apareceu eu te chamei de rolha. Era uma rolha. De cachaça. Ou de vinho. Não importa. Era uma rolha prestes a se encaixar no buraco que tinham deixado no meu peito. O engraçado é que a rolha tinha o tamanho ideal É eu sei que eu prefiro Brahma, mas hoje eu posso tomar Antártica e parecia disposta a se encaixar no meu vazio.

     O problema é que no nosso primeiro encontro o meu plano tinha dado certo. Quando a gente se apaixona por alguém acontece em instantâneo, no primeiro olho-no-olho, pele-na-pele, oi-tímido-no-oitímido. E assim foi. Você não tinha ares de preocupação, nem de vergonha. Eu tinha. Mas fingi. Suponho que você também tenha fingido e acabamos um acreditando no fingimento do outro. Articulado tentei desenvolver assuntos e como! eles fluíram. 10 20 30 40 50 60 120 240 minutos que pareciam 2 segundos. Percebe porque eu te chamei de rolha? Bastava a companhia. A conversa. O beijo, o sexo eram Você não vai beber?  os menos importantes. Suficiente era estar sentado com você numa mesa de bar falando de cinema ou música ou literatura ou mídia ou amores ou qualquer coisa, suficiente mesmo era estar com você.

     Você viajou. Eu senti saudades. Sempre. Todos os dias. Todas as horas de todos os dias eu pensava em te ligar, quem sabe mandar um recado, até mesmo um email. Mas não, me parecia muito invasivo e eu ainda precisava parecer furtivo e assim foi. Essa é a desculpa que estou me dando e tentando acreditar, mas era medo. Isso. Medo. Mais uma vez o cara que precisava parecer desinteressado estava extremamente interessado – e isso acontece. Irônico, no mínimo. Você também não procurou o cara. Foram longos dias. O cara achava que o que ele estava sentindo era muito visível muito claro enquanto você Como assim? Não pode mais fumar aqui? era uma incógnita de tal modo que você devia ter procurado. E não procurou.

     Você voltou. E não buscou o cara, tampouco ele, no primeiro dia. nem no segundo. nem no terceiro. Talvez no quarto tivesse rolado comunicação, rápida, mas comunicação, que de leve apaziguou o que podemos chamar de saudade. Os dias foram passando e o cara te queria cada hora mais. Acreditava que você não estava muito afim de papo ou envolvimento e eu fui morrendo secando murchando e tudo bem! paixão tem que acontecer nos dois, ambos precisam se apaixonar com a mesma força e na mesma intensidade, porque quando A gente pode sentar lá fora que pode fumar uma pessoa se apaixona mais, sente mais, preza mais, a coisa toda desanda. É como fazer brigadeiro de café. É. Se você colocar mais margarina do que deveria não é mais brigadeiro, vira bala. Percebe? Os dois precisam querer juntos na mesma quantidade. E o cara achava que ele era o mais da história. Não se sabe. O cara é um idiota.

     Fiquei sabendo que você se apaixonou por outra pessoa. Mas é isso aí, um eterno encontrar e se perder; tudo certo. Ok. Desesperador e aliviador saber da sua paixão, porque de algum jeito de algum Essa lei anti-fumo me irrita, mas tudo bem se aqui pro lado de fora o cigarro é liberado. Cervejas, cigarros, agora a gente pode conversar. Cinema? jeito você entende muito bem esse negócio que eu sinto preso na garganta prestes a cuspir pra fora antes que exploda.